Não se deixe enganar pelo tamanho. Em apenas 16 milímetros se esconde um sapo muito especial que ganhou a atenção de pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O pequeno Pseudopaludicola canga é um dos menores anfíbios documentados pela ciência brasileira e vive exclusivamente em uma região rochosa, rica em minério de ferro, na Serra de Carajás, no Pará.

Entre janeiro e fevereiro do ano passado, a equipe coordenada pelo professor do Departamento de Ecologia e Zoologia da UFSC Selvino Neckel de Oliveira viajou até a região para estudar o animal. Duas alunas do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e dois alunos da graduação em Biologia da universidade passaram um total de quarenta dias, divididos em duas expedições, observando a reprodução, os hábitos alimentares e o canto do minúsculo sapo, entre outras características.

— Este sapinho é um guerreiro. Ele se adaptou muito bem a um ambiente extremo, com pouca água e sobre rochas cuja superfície pode chegar a marcar 35ºC, conseguindo se reproduzir e ter uma população grande neste local—,conta Neckel.

O Pseudopaludicola canga tem hábitos diferentes dos da maioria dos anfíbios: enquanto os outros se reproduzem à noite, este se reproduz durante o dia. Trata-se de uma estratégia de sobrevivência, pois o ambiente onde vive, conhecido como savana, é caracterizada pela predominância de rochas ricas em ferro e uma vegetação aberta e baixa que cresce sobre estas rochas. Apenas 5% de toda a Floresta Nacional do Carajás tem essa característica, em meio a 95% de floresta densa. Por isso que o sapinho aproveita a água da chuva que se acumula entre as rochas, e que se evapora rapidamente por causa da temperatura elevada, para se reproduzir.

Com coloração amarronzada, o macho canta para atrair a fêmea, em média dois milímetros maior e, dentro de dois a três dias após a fecundação, os ovos eclodem e nascem os girinos. Apesar do tamanho, esse sapo se alimenta de pequenos insetos, como besouros, aranhas e moscas, e seus principais predadores são serpentes e aves. Ainda não foi possível precisar o tempo de vida médio do P. canga, mas estima-se que seja entre um e dois anos na natureza.

Tudo o que vem sendo pesquisado será convertido em artigo científico, que no mês que vem deve ser enviado para publicação em uma revista especializada. Este é o primeiro estudo realizado sobre a espécie, descrita pela comunidade científica em 2005.

Ficha técnica

O Pseudopaludicola canga faz parte da lista de espécies ameaçadas de extinção da União Internacional para a Conservação da Natureza, onde recebe a categoria de “Deficiente de Dados”. Na lista de espécies ameaçadas do Estado do Pará, aparece como “Em Perigo”. Isso se deve, em grande parte, ao fato de o animal viver em um espaço restrito.

Nome científico: Pseudopaludicola canga
Tamanho: as fêmeas chegam a 18mm, e os machos têm em média 16mm. O menor anfíbio brasileiro encontrado até hoje é o sapo pulga, que tem em média 10mm.
Cor: marrom.
Onde vive: ambiente conhecido como savana, caracterizado por rochas ricas em ferro e cobertas por vegetação aberta e baixa, na região da Serra de Carajás, no Pará.
Tempo médio de vida: entre um e dois anos na natureza.
Do que se alimenta: pequenos insetos, como besouros, aranhas e moscas.
Quem se alimenta dele: serpentes e aves.

Para o seu filho ler
O que fazer ao cruzar com um sapo?
Quando encontrar por aí um sapo ou outro animal pequeno, não toque e fique apenas observando ele voltar de onde veio. Se o bichinho estiver num local de risco, peça para o papai ou para a mamãe ligar para a Polícia Ambiental ou para os bombeiros. Nunca fique muito perto, cutuque ou jogue pedra. Todos os animais, também os sapos, têm papel importante na natureza. Se ficou feliz de ter visto o bicho, deixe-o quietinho.

DIÁRIO CATARINENSE