Uma frase de Hugo Chávez resume o que ele representa para a Venezuela e o sentimento de orfandade que milhões de venezuelanos estão sentindo neste momento em que sua morte é anunciada. Chávez morreu às 16h25min (17h25min, horário de Brasília) de hoje em razão de um câncer. Disse ele certa vez:

— Já sei que nunca me irei porque ficarei para sempre nas ruas e nos povoados da Venezuela, porque Chávez já não sou eu, Chávez é a pátria.

Veja a cronologia de Chávez no poder

Se levarmos em consideração a recente eleição que lhe garantiria o quarto mandato e 20 anos no poder, 55% dos venezuelanos viam em Chávez um líder messiânico, um homem que se confundia com a pátria. E até mais: Chávez foi o líder sul-americano que com mais energia se contrapôs aos Estados Unidos.

Para outros tantos, tratava-se de um governante autoritário, que flertava com a ditadura, não chegando a tanto devido a um detalhe: na Venezuela, há eleições (apesar das campanhas desiguais em razão do uso da máquina pública), há imprensa crítica (apesar das perseguições e das cassações de licenças, como a da emissora de TV RCTV, crítica ao seu governo) e há três poderes — apesar de todos terem sido cooptados pela sua força política.

Vice-presidente venezuelano, Nicolás Maduro, anunciou o falecimento de Chávez em rede nacional

Desde sua fracassada tentativa golpista, 20 anos atrás, Hugo Chávez Frías tratou de fazer da sua imagem a imagem da pátria. Trilhou um caminho rumo ao poder, cujo inimigo mais contundente foi o câncer que o derrubou.

Polêmicas no rumo do poder

Nascido em Sabaneta, em 28 de julho de 1954, era o 56º presidente da Venezuela. Dizia-se o líder da revolução bolivariana, cujo objetivo era implantar o socialismo do século 21. Da tal revolução, pouco se sabe.

Seria um misto de assistencialismo com o discurso antiamericano que o levou até mesmo a se definir como “irmão ideológico” de tiranos como o iraniano Mahmoud Ahmadinejad — um polêmico e notório inimigo dos EUA e do mundo ocidental. Essa, aliás, foi apenas uma entre tantas polêmicas que provocou.

Oficial militar, Chávez fundou o Movimento Quinta República, de esquerda, depois de liderar uma tentativa de golpe de Estado contra o governo de Carlos Andrés Pérez. Em 1998, foi eleito presidente pela primeira vez, levantando a bandeira do combate contra a pobreza. Com o respaldo de numerosos referendos e eleições, reelegeu-se em 2000 (uma espécie de referendo que confirmou seu mandato), 2006 e 2012.

Em seus governos, o assistencialismo se fez nas formas de missões bolivarianas, a base de toda uma política lastreada na exportação de petróleo. Pelas missões, saúde, educação e miséria eram o alvo.

Popular, aglutinou siglas de esquerda no Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), centralizou o poder com mão de ferro e, aproveitando-se também de erros estratégicos da oposição, passou a controlar a Assembleia Nacional (o Legislativo venezuelano) e o Tribunal Supremo de Justiça (a mais alta corte). Enfim, sobressaiu-se aos três poderes.

A tal ponto chegou o filho dos professores Hugo de los Reyes Chávez e Elena Frías de Chávez. Desde cedo, ele frequentou escolas de qualidade e praticou baseball. Até que, aos 17 anos, ingressou na Academia Militar da Venezuela, graduando-se, em 1975, em Ciências e Artes Militares, ramo de Engenharia. Tornou-se tenente-coronel e passou a conspirar para a conquista do poder, com um discurso populista acompanhado de práticas que foram se aperfeiçoando do golpe ao voto.

Em meio a essa trajetória, Chávez se casou com Nancy Colmenares — com quem teve três filhos (Rosa Virginia, María Gabriela e Hugo Rafael) — e Marisabel Rodríguez, de quem se separou em 2003 e com quem teve uma filha, Rosinés.

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